
Ricardo Calil, do Nominimo, expressou tudo aquilo que sempre me esforcei em fazer para convencer a todos aqueles que não simpatizam com Jim Carrey. Meu ídolo confesso.
Um gosto inconfessável
21.01.2005 | Adorado pelo público, mas desprezado pela crítica americana durante anos, Jerry Lewis precisou ser redescoberto pelos franceses para ser respeitado como criador cinematográfico. Antes que outra injustiça histórica seja cometida, já está na hora de se fazer o mesmo por Jim Carrey. Esse canadense de 43 anos não é apenas um dos grandes comediantes do cinema, como também um dos melhores atores de sua geração.
No ano passado, ele mostrou sua verve dramática em “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, como havia feito antes em “O Show de Truman”. Agora, volta a demonstrar seu talento de comediante em “Desventuras em Série”, que estréia hoje no Brasil. Não há sinal de que ele será reconhecido com uma indicação ao Oscar por qualquer um dos filmes.
Adaptação dos livros de Lemony Snicket (alter ego do escritor Daniel Hendler), “Desventuras em Série” é um prato cheio para Carrey, que faz praticamente um papel triplo. Ele interpreta o vilão Conde Olaf, ator canastrão que recebe a guarda dos três órfãos Baudelaire, mas tenta matá-los para ficar com a herança. Para enganar outros parentes, Olaf se faz passar por outros dois personagens.
É um belo filme, que nunca menospreza a inteligência do público juvenil e que tem ótimas interpretações de Emily Browning e Liam Aiken como os mais velhos dos irmãos Baudelaire. Mas é também um filme que Carrey torna melhor por causa de sua atuação – como, aliás, ele tem feito ao longo de sua carreira, em produções como “O Mundo de Andy” e os dois “Ace Ventura”.
Se nos primeiros filmes sua influência mais clara era justamente o histriônico Jerry Lewis (ele já foi muito criticado por ser careteiro como o americano), neste novo filme Carrey lembra mais o versátil Peter Sellers em “Dr. Fantástico” (em que o inglês também fazia três papéis). Seguir os passos de dois gênios do humor sem cair na mera imitação é uma prova de sua coragem e de seu talento cômico.
Carrey é um dos raros casos de atores “autorais” do cinema americano contemporâneo. Ele é tão ou mais dono de seus filmes do que os cineastas que os dirigem – e sua fama de improvisador compulsivo só ajuda a reforçar a tese.
Para a maioria dos atores americanos, o sinônimo de grande atuação é desaparecer no personagem. Com Carrey, ocorre o contrário. Por trás da pesada maquiagem do Grinch ou de Conde Olaf, é sempre possível identificar algo da expressão de insanidade que o ator carrega consigo (como uma quantidade considerável de comediantes, ele teve uma infância difícil e é depressivo).
No humor ou no drama, Carrey tem uma rara coerência na escolha de papéis. Quase todos os seus personagens são pathetic losers (perdedores patéticos), expressão que ele usa em “Debi & Lóide”; inocentes que são passados para trás e perdem a cabeça.
É nesse momento que o virtuosismo facial e corporal de Carrey se revela em toda a sua extensão. Carrey não tem medo do ridículo. Ao contrário: ele o exagera para denunciar o que há de patético em todos nós.
O fato de ter iniciado sua carreira como comediante no palco (ele fazia a chamada stand-up comedy) foi uma bênção para Carrey, porque lhe deu uma enorme versatilidade. Como se sabe, é muito mais fácil um comediante se tornar um bom ator dramático do que o contrário; mais comum chorar com Carrey do que rir com Cruise.
Isso pode ser comprovado por casos como o de Bill Murray e Steve Martin, outros grandes atores contemporâneos que começaram suas carreiras na comédia. Ou ainda com Jamie Foxx, que foi parceiro de Carrey no seriado cômico “In Living Color” e hoje é favorito ao Oscar de melhor ator por seu trabalho em “Ray”.
Por outro lado, a marca de comediante é também um fardo para Carrey, porque atrapalha seu reconhecimento como ator. Como no caso de Foxx, ele teve de partir para o drama em “O Show de Truman” para ganhar um Globo de Ouro e ser indicado ao Oscar. Felizmente, Carrey sempre retorna ao gênero que o consagrou, como em “Desventuras em Série”.
Esse preconceito contra a comédia leva a um consenso um tanto equivocado sobre Carrey: o de que ele provou ser um grande ator em filmes “sérios” como “O Show de Truman” ou “Brilho Eterno”, quando na verdade seus melhores trabalhos podem ser encontrados em filmes considerados menores, como “Debi & Lóide” e “O Mentiroso”.
É provável que boa parte dos leitores não concorde com essa opinião. Ou ainda que ache Carrey sempre tão canastrão quanto o Conde Olaf de “Desventuras em Série”. Não tem problema. Todo espectador de cinema tem um gosto inconfessável. Jim Carrey é o meu. Sem falar no Jackie Chan...
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